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Não existe uma Inteligência Artificial nacional. O que existe no Brasil são aplicações de técnicas de IA já consagradas no mundo inteiro”

Um dos principais estudiosos da Inteligência Artifical (IA) no setor universitário, o professor Raimundo Celeste Ghizoni Theivi acredita que a indústria brasileira de software não consegue acompanhar a velocidade do desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) nos grandes centros de desenvolvimento no Primeiro Mundo. Isso acontece, acrescenta,

porque nossa indústria não mantém um setor voltado à pesquisa em IA – ao contrário do que fazem grandes empresas mundiais de Tecnologia da Informação, como IBM, Microsoft, Amazon e Google. “Em geral, no Brasil o foco é a aplicação e a customização das técnicas de IA conhecidas, em problemas nacionais complexos e relevantes, e não o desenvolvimento de novos algoritmos ‘espertos’”, explica Theivi, que é professor titular da graduação e professor efetivo do Mestrado em Computação Aplicada da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Theivi possui mestrado em Engenharia Elétrica e doutorado em Engenharia de Produção na mesma UFSC. Em seu doutorado, passou um ano de estudo (split PhD) no Queen Mary College, da London University. Com mais de 100 artigos publicados, atua como pesquisador do Laboratório de Planejamento de Sistemas Elétricos de Potência (Labplan) da UFSC. 
Tem experiência nas áreas de Engenharia Elétrica e Computação, com ênfase em Planejamento da Transmissão e Distribuição da Energia Elétrica, além de Inteligência Artificial, onde atua principalmente na aplicação de técnicas da IA em problemas de engenharia e computação.

Nessa entrevista para o Fenainfo Notícias, Theivi fala do atual estágio da Inteligência Artificial no Brasil e das oportunidades para os desenvolvedores brasileiros. 

A Inteligência Artificial (IA) é uma das tecnologias que mais avança no mundo da Tecnologia da Informação, é um dos pilares da revolução digital. Como estão as empresas brasileiras nesse setor? A indústria nacional de software consegue acompanhar a velocidade do desenvolvimento da IA no mundo?

A Inteligência Artificial é composta por um conjunto de técnicas “espertas”, que visam resolver problemas complexos, cuja solução via programas computacionais convencionais não é tão eficiente, ou mesmo algumas vezes não é viável. A indústria nacional não consegue, de forma geral, acompanhar a evolução dessas técnicas, principalmente porque não possui um setor voltado à pesquisa. Ao contrário de empresas como IBM, Microsoft, Amazon e Google, as quais têm equipes dedicadas ao desenvolvimento e aplicação de técnicas de IA aos seus problemas cotidianos.

E a academia? Com todos os problemas de cortes de verbas para a ciência e tecnologia, nossas universidades e institutos tecnológicos estão conseguindo inovar em IA?
Sim. Apesar da crise, as pesquisas têm continuado na academia, não somente com o fomento dos governos estadual e federal, mas através de projetos com empresas. 

Poderia citar pesquisas relevantes sendo desenvolvidas em IA na academia, aqui no Brasil?

Alguns exemplos: sistema inteligente para detecção de fraudes de energia usando aprendizado por máquina; sistema tutor inteligente para auxílio do processo ensino-aprendizagem; previsão de consumo de energia usando redes neurais artificiais; visão computacional para identificação de uso de cinto de segurança; visão computacional para identificação de buracos na estrada. Todos esses exemplos representam oportunidades de negócios para os desenvolvedores brasileiros de software, mas não é muito fácil encontrar mão de obra especializada. 

Que setores da economia representam boas oportunidades para o desenvolvimento de uma Inteligência Artificial “made in Brazil”?

Não existe uma Inteligência Artificial nacional. O que existe no Brasil são aplicações de técnicas de IA, já consagradas no mundo inteiro. Em geral, no Brasil o foco é a aplicação e a customização das técnicas de IA conhecidas, em problemas nacionais complexos e relevantes, e não o desenvolvimento de novos algoritmos "espertos". 

O governo está preparando o Plano Nacional de Internet das Coisas. Acredita que a Inteligência Artificial precisa também de algum tipo de regulação? Que políticas públicas seriam necessárias para o desenvolvimento da IA?

A IA não precisa de regulação, pois não se teria nem como regular software. O governo tem que apoiar projetos de pesquisa relevantes para o país, em termos científicos, sociais e econômicos. Com ou sem o uso de IA. 

Ética, desemprego, invasão da privacidade... Corremos o risco de a Inteligência Artificial acentuar problemas sociais e econômicos já existentes?
Apesar do rápido desenvolvimento da IA e da sua popularização cada vez maior (vide casos do Watson da IBM, Azure da Microsoft e Alexa da Amazon); acredito que as máquinas podem substituir pessoas em tarefas de risco, de repetição, call centers e help desks.

Mas o sr. acredita que a Inteligência Artificial, assim como a Robótica, corre o risco de tornar-se tanto problema quanto solução, por conta da geração de desemprego em vários setores e outras implicações? Ou isso é um temor infundado? 

Entendo que vai ser solução. Funções como leiturista (contas de água, energia), cobrador de ônibus etc. já não existem mais em países de Primeiro Mundo. Cabe a esse pessoal se aperfeiçoar em outras atividades. O que aconteceu com o datilógrafo? Teve que aprender computação e aprender a usar um editor de texto, caso quisesse trabalhar na mesma área.

Fonte: Jornalismo Fenainfo 

Edição: 15 de 31.05.2017

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