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Ser global é uma questão de horizonte. Uma empresa precisa pensar que seu cliente, seu concorrente, equipe ou fornecedor podem estar em qualquer lugar do mundo. Esso é o ponto de partida para uma atuação global”

O Fenainfo Notícias conversou com Claudia Pavani, economista, doutora em administração, especialista em plano de negócios e funding de pequenas e médias empresas, e em estratégias de crescimento de empresas de base tecnológica, além de  gestão de habitats de inovação e spin off. Autora dos livros “O Capital de Risco no Brasil” e “Conceito, evolução, perspectivas e Plano de Negócios – Planejando o sucesso do seu empreendimento”, Pavani coordenou a área de funding do SOFTEX, e BOVESPA/BMF. Atualmente, presta consultoria na área de inovações tecnológicas em saúde. 

Como você avalia ecossistema nacional no que diz respeito ao desenvolvimento do setor de TI no Brasil?

Quando falamos em Brasil, não tem como não trazer alguns componentes: gigantismo territorial, diferenças regionais e diversidade produtiva. Assim, como comparar uma região como São Paulo, sede de mais de 60% das empresas internacionais com atuação no País, que possui uma Fundação de Amparo à Pesquisa com orçamento próprio e programas permanentes de apoio à inovação nas empresas com outras regiões? Ou mesmo a cidade de São Paulo, maior centro financeiro da América Latina sede da maioria dos bancos?  No Brasil existem inúmeros ecossistemas regionais, alguns exemplos são os de Recife, a Zona Franca de Manaus, o Rio Grande do Sul, Florianópolis, Ribeirão Preto, São José dos Campos, Campinas, São Paulo, Santa Rita do Sapucaí, Brasília, etc. Em todos, os atores regionais têm seus papéis na formulação de políticas públicas para TI (exemplos podem ser a política de incentivos fiscais de ISS e ICMS das esferas municipal e estadual; o apoio aos habitats de inovação, linhas de crédito, etc..
Ou seja, podemos comparar regiões do Brasil, por exemplo: aquelas que formularam políticas públicas e consistentemente as fizeram acontecer, com outras. Claro que possuem regulamentações federais, por exemplo a Lei do Bem ou a Lei de Informática, e condições macro que impactam as empresas nos seus setores e regiões, mas a ação regional, a construção no dia a dia com um direcionamento estratégico, é o que faz um ecossistema de inovação. Existem diversas experiências diferentes, nas quais existe uma liderança empresarial, em outras quem assume é o governo ou uma universidade.  Em resumo, onde a sua empresa está importa, pois é neste ecossistema regional que você irá se desenvolver.

Do ponto de vista da inovação e da competitividade num contexto global, que práticas você indica para as empresas do setor de TI nacional ?

Em primeiro lugar elas têm que ser globais, pensar, se estruturar para serem globais, mesmo que sua atuação seja local. O ser global é uma questão de horizonte. Pensar que seu cliente, seu concorrente, equipe ou fornecedor podem estar em qualquer lugar do mundo é pensar uma atuação global. Para tal, é importante desenvolver uma competência diferente que é a capacidade de se relacionar à distância com estes diversos atores, o que implicará na utilização de ferramentas adequadas, capacidade de identificar e lidar com diferenças culturais etc.

Quais são áreas com mais espaço atualmente, no Brasil, para inovação tecnológica?

São as interdisciplinares, por exemplo uma área com grande potencial de crescimento e que necessita inovações é a da saúde. Os organismos vivos são cada vez mais entendidos a partir de modelos, algoritmos; a interação é cada vez maior entre os vivos e “não vivos”, dados e informações fluem e deveriam gerar conhecimentos para uma série de aplicações onde as tecnologias da informação e comunicação são as viabilizadoras. Por exemplo, monitoramentos de ondas cerebrais poderiam ser enviadas para a nuvem, comparadas com padrões e de identificação de patologias ou eventos para um determinado indivíduo. Uma vez identificado o evento, ações preventivas poderiam ser tomadas, como acionar profissionais de saúde.
 
Como consultora de plano de negócios para startups tecnológicas, o que recomenda como planejamento de captação de investimentos? Destacaria alguns exemplos de fundos de investimentos em startups?

Nem todos os negócios são financiáveis por fundos de investimentos. Nem por isso, são negócios ruins, apenas não possuem as características necessárias para a captação de recursos destes instrumentos. Vale a pena avaliar os crowd fundings e aceleradoras.
Algumas “lições de casa” têm que ser feitas. A primeira é conhecer profundamente o seu negócio e ter realizado as etapas até o momento da captação, adequadamente. Por exemplo: a empresa possui modelo de negócios validado? Checou com as partes interessadas? Possui um protótipo? Conhece seu cliente ou potencial cliente? Conhece seus concorrentes e potenciais concorrentes?  Outra “lição de casa” é conhecer a lógica do fundo investidor, que variam de fundo para fundo. Assim, cabe entender os objetivos do fundo e a equipe empreendedora tem que ter claro o porquê o seu negócio seria interessante ao fundo.

Na sua opinião, o que o Brasil necessita nesse momento, quais as prioridades, para que o setor de TI nacional seja competitivo no contexto global?

Acredito que os empreendimentos de TI que possuem futuro são os que dominam os conhecimentos de negócio, ou seja, a TI é ferramenta e não meio. Exemplos clássicos são Uber, Airbnb, Facebook, Amazon.  Uma empresa que pretenda atuar em tecnologia da informação para agribusiness tem que entender muito de agribusiness para caminhar na direção do negócio...

Como você vê e avalia a criação de parques tecnológicos voltados para inovação em saúde, agronegócio, indústria, comércio e serviços, meio ambiente e desenvolvimento social etc? O que é necessário para que esses investimentos rendam frutos concretamente?

Os parques tecnológicos não devem ser apenas empreendimentos de compartilhamento de espaços, estruturas físicas, com excelentes condições de comunicação. Se forem apenas isso, tornam-se meros condomínios. Para que o resultado seja efetivo, é necessária a formação de redes entre os participantes que permitam a criação de conhecimento comum e cooperação entre os atores.  Até por isso, muitos destes empreendimentos contam com espaços comuns que estimulam os relacionamentos entre os participantes. Também na formulação estratégica do Parque deverá ser pensada e prevista a presença de organizações âncora, como empresas ou universidades, e a forma que a interação entre os atores pode acontecer, como por exemplo, cursos de capacitação nas áreas afins do Parque. Fundamental pensar a participação e presença de empresas spin off e start ups, que são os atores onde a experimentação e risco, fundamentais para o processo de inovação, são mais propícios. E, por fim,  os atores suporte do ecossistema, como investidores (anjos, fundos) e empresas de consultoria, poderão interagir com os atores do parque. Quando um parque “dá certo” pode se tornar o motor de desenvolvimento de uma região ou de um setor.
 

Fonte: Fenainfo

25 de outubro de 2017 | Edição nº 37

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